FIQUE POR DENTRO
Escritora mirim
Menina
de apenas oito anos escreve livro e pede edição também
em braile para que sua prima, que é deficiente visual, pudesse
ler a obra
Reportagem: Susana Sarmiento, Setor 3, 26/10/06
Inserida em: 7/11/2006
Carioca, oito anos de idade é escritora. Esta é Munna
Alexandre. Em libanês, seu nome quer dizer Boa Sorte. Desde pequena
já tinha o costume de brincar de escrever histórias nas
horas livres mesmo durante o processo de alfabetização.
No começo deste ano, sua mãe sugeriu que ela escrevesse
um livro para ser distribuído aos convidados no aniversário
de sua irmã mais nova.
"Kiki Gugu Dadá" é o título da primeira
obra de Munna. As ilustrações também são
feitas pela autora. A história é sobre o sumiço
da irmã de Munna, conhecida como Kiki, num shopping. Uma das
personagens é sua prima que é deficiente visual.
Mas ninguém sabia da Kiki.
- Yasmin, você sabe onde está a Kiki? Perguntei à
minha prima.
- Não sei não Munna, já faz um tempinho que não
sinto o cheirinho de pomada de bumbum de neném, dela...
O trecho é um dos exemplos que mostra a convivência de
Munna com deficientes visuais. Para que sua prima Yasmin lesse seu livro,
Munna pediu que a história fosse publicada também em braille.
Esta iniciativa rendeu o Selo de Acessibilidade Brasil, um prêmio
destinado a ações e projetos que promovam a inclusão
social e econômica de pessoas com deficiências.
A menina do terceiro ano do Ensino Fundamental começou a lidar
com o mundo da fantasia nas aulas de teatro, quando tinha apenas um
ano e meio de idade.
Ela conta que gosta de interpretar e inventar histórias. "As
outras crianças me perguntaram como eu tinha escrito a história,
se era difícil, se era verdadeiro o sumiço da minha irmã",
comenta Munna.
A mãe, Carla Alves Alexandre, já notava o talento da filha
há muito tempo e procurava valorizar suas histórias. Ela
conta que Munna sempre conviveu com a prima Yasmin. "O que achei
interessante foi a Munna ter pensado na questão da inclusão
social", afirma.
A mãe da pequena autora conta ainda que sua filha participou
de algumas palestras em sua escola e do 1º Seminário de
Educação e Contemporaneidade, realizado em setembro, no
Rio de Janeiro. Também se apresentará no 2º Perspectivas
Atuais em Educação, no dia 11 de novembro, no Rio de Janeiro.
Carla Alves não sabia como atender ao pedido da filha para colocar
a história em braille. Pediu ajuda ao Instituto Benjamin Constant
(onde a prima estuda) e a editora Crayon gostou da história do
livro e patrocinou a publicação.
Munna decidiu também que metade do dinheiro obtido com a venda
de sua obra fosse direcionada para o Instituto Benjamin Constant. Também
serão doados 10 exemplares para a biblioteca da Secretaria de
Educação, dando oportunidades a outros deficientes visuais
da rede pública. "É interessante ver as outras crianças
perguntarem o que são todos aqueles pontos brancos e porquê
Munna colocou em seu livro. Agora pretendemos visitar mais escolas no
próximo ano e participar das feiras culturais", comenta
Carla.
Independente do dinheiro, Elly Maria André de Mendes, professora
especialista em deficiência visual e assistente da diretoria do
Instituto Benjamin Constant, afirma que achou interessante a preocupação
de uma criança de oito anos em pensar nos deficientes. "A
sensibilidade dela foi uma coisa boa e ainda mais vindo de uma criança",
reforça.
No Rio de Janeiro, o livro pode ser encontrado nas livrarias Travessa,
Renovar, Galileu e Letras e Expressões. Também serão
aceitos pedidos pelo e-mail crayon@crayon.com.br.
Livro: Kiki, Gugú, Dadá
Autora: Munna
Editora: Crayon
Páginas: 24 em tinta e 30 em braile
Preço: R$ 33,00