FIQUE POR
DENTRO
Ponto Cego
O
treinamento parece aumentar a sensibilidade visual das pessoas com danos
no córtex visual que causa cegueira no lado oposto do campo visual
Treinamento
melhora visão de pessoas com cegueira cortical
Outubro
O termo "visão cega" pode parecer contraditório,
mas na verdade é um efeito curioso no qual pessoas que não
enxergam em parte do campo visual devido a danos cerebrais ainda são
capazes de reagir a estímulos na área cega.
O pesquisador Arash Sahraie e sua equipe da Universidade de Aberdeen,
na Escócia, descobriram que se esses pontos cegos forem estimulados
repetidamente por vários meses, a capacidade de usar a visão
cega pode melhorar, pelo menos em testes de laboratório.
O estudo foi publicado em setembro no site da revista Proceedings of
the National Academy of Sciences USA.
Derrames, traumatismos ou cirurgias podem causar a chamada "cegueira
cortical" ao eliminar uma parte do córtex visual, a região
do cérebro que recebe dados dos olhos. Acredita-se que visão
cega aconteça porque o cérebro é capaz de redirecionar
a informação visual que os olhos, ainda intactos, o enviam.
Pacientes com visão cega são capazes de "adivinhar"
cores, movimentos e até expressões faciais localizados
no ponto cego, mesmo quando afirmam nada enxergar.
Alguns grupos de pesquisa tentaram identificar melhorias na visão
cega após estímulos repetidos, mas esses estudos geralmente
envolviam a introdução de estímulos próximos
aos limites do ponto cego.
Nesse caso, os dados não são tão confiáveis,
pois os pacientes podem ter mudado a direção do olhar
rapidamente, sem que isso fosse detectado.
Para eliminar essa fonte de incerteza, Sahraie e seus colegas pediram
a 12 pessoas com cegueira cortical que praticassem com estímulos
apresentados no meio de seus pontos cegos.
Todos os dias, por três meses, e usando computadores em casa,
eles adivinharam repetidamente qual dos dois estímulos era apresentado
primeiro - um campo circular vibrante com linhas pretas e brancas, criado
para estimular ao máximo seus córtices, ou um ponto cinza.
Após o treinamento em casa, os participantes melhoraram seus
resultados em um teste de laboratório: em média, o número
de adivinhações corretas aumentou entre 5 e 10%. Com uma
freqüência duas vezes maior, eles também disseram
estar conscientes da alternativa correta.
Entretanto, ao terem sua visão cega testada em outra parte
do ponto cego, longe do centro, os participantes não relataram
nenhuma mudança no estado de consciência e apenas uma pequena
melhora em sua capacidade de distinguir estímulos. "Esses
resultados são muito encorajadores, mas um exame clínico
será necessário para determinar se a técnica realmente
melhora a qualidade de vida do cego", diz Sahraie.
Segundo o neuropsicólogo James Danckert, da Universidade de Waterloo
em Ontário, Canadá, que não participou do estudo,
"trata-se de uma demonstração notável da maleabilidade
do cérebro adulto.
As mudanças ocorreram muito tempo depois do dano neural".
Para obter melhorias ainda maiores, no entanto, ele diz que os participantes
têm que desenvolver toda a sua área cega.
JR Minkel