JORNAL

CONVIVA

Associação de Deficientes Visuais e Amigos - Adeva

Ano IX - nº 42 - julho/agosto de 2008

EDITORIAL - AS CALÇADAS NOSSAS DE CADA DIA

INTERNET

ANOTE

CONVIVAWARE

A CONSTRUÇÃO DO SUCESSO

ESTIVE LÁ E GOSTEI!

SOBRE RIOS

MEU RIO

NOSSOS TALENTOS

O QUE VOU SER QUANDO CRESCER

ADEVA EM FOCO

GRÁFICA BRAILLE

PALESTRAS

ANÚNCIOS


EDITORIAL

AS CALÇADAS NOSSAS DE CADA DIA

Sempre morei na zona Norte e, quando pequeno, o bairro era sossegado. As pessoas tinham o costume de dizer que iam para a cidade e subiam minha rua para pegar o ônibus. Eu, de quando em vez, disparava a correr ladeira acima, bem pelo meio da rua, comunicando aos que estavam à minha volta meu desejo de “ir para a cidade”. E lá ia o povo atrás de mim, ao meu encalço, e me traziam para casa, contra minha vontade, pois eu não entendia por que só gente grande é que podia sair sozinha para a cidade.

Fui crescendo e aprendi que nós, pedestres, devemos andar pela calçada. A rua é para carros, caminhões, bicicletas e tudo que têm rodas.

Depois que aprendi a andar de bengala, comecei a conviver mais amiúde com a diversidade de nossas calçadas: raros trechos planos, degraus dos mais variados tipos, buracos, carros estacionados, orelhões, barraquinhas, bancas de jornal e por aí vai.

Minha criança, que anda sempre comigo, ainda que escondida dentro de mim, deu um salto para fora e perguntou: “mas calçada não é para gente andar?”.

Insiste na pergunta, principalmente quando, ao caminhar pelo passeio, encontro portões abertos ou piso no cocô dos cachorros. E por falar em cães, há muitos moradores que deixam seus animais próximos aos portões e às grades, do lado de dentro, é verdade, mas sem se preocuparem em cuidar para que eles não mordam quem passa rente às casas.

A resposta parece simples, mas as pessoas a escondem atrás de frases evasivas: “é culpa da Prefeitura que não pune quem obstrui as calçadas”; “é culpa do povo, que não tem espírito comunitário”; “culpado é o governo, que não educa o cidadão”.

Depois de ouvir tudo isso, minha criança chegou a uma conclusão: “calçada foi feita para as pessoas andarem, mas gente grande é desobediente, faz tudo errado e ainda diz que nós, crianças, gostamos de teimar”.

A verdade é que as calçadas são de uso comum e por isso não devem ser tratadas como um problema deste ou daquele setor da sociedade. Todos nós, Estado, moradores, comerciantes, pessoas com deficiência, somos responsáveis pelos nossos passeios públicos. Melhorar as calçadas é facilitar a vida de todos. Uma calçada sem obstáculos ou buracos significa respeito ao cadeirante, às pessoas com deficiência visual, aos idosos e às mamães que levam seus bebês nos carrinhos.

Qualquer melhoria da condição de vida das minorias sociais resulta em melhoria para toda a sociedade e as calçadas não estão fora disso.

Markiano Charan Filho – Diretor-presidente da ADEVA



INTERNET


http://www.livemocha.com/ – Endereço para quem quer desenvolver as habilidades de leitura, escrita, compreensão oral e expressão oral em alemão, inglês, espanhol, francês, híndi, islandês, italiano, japonês, português, russo, mandarim. As aulas e lições são interativas e se adequam ao ritmo do aluno. E de graça.

http://www.ecoogler.com/ – Página que usa as mesmas ferramentas de busca do Google, com uma diferença: a cada busca, contabiliza-se uma folha; a cada 10 mil folhas, ganha-se uma árvore plantada na Amazônia.

http://www.mingaudigital.com.br/ – Site infantil com muita informação, folclore, fábulas, dicas e a seção Minforma: um pouco de muito.



ANOTE

Nossos recomendados!

DE PORTA EM PORTA – Baseado em uma história real, conta a experiência de Bill Porter, portador de paralisia cerebral, como vendedor “porta a porta”. Com William H. Macy, Kyra Sedgwick, Helen Mirren, Kathy Baker. Drama, EUA, 2002. Nas locadoras, em DVD.

BOB MARLEY SONGS OF FREEDOM – Box com 4 CDs do cantor, guitarrista e compositor jamaicano, o mais conhecido músico de reggae de todos os tempos. Island, 1992.

NO DIVÃ DO GIKOVATE – Programa comandado pelo psicoterapeuta Flávio Gikovate, que responde perguntas (feitas por telefone ou por e-mail: gikovate@cbn.com.br) sobre relacionamentos afetivos, sexo, comportamento, medos e expectativas. Rádio CBN, 780 AM, domingo, das 21h às 22h.

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS – História da menina Liesel Meminger, contada pela Morte, que a encontra por três vezes sem conseguir arrebatá-la. Marcos Zusak, São Paulo, ed. Intrínseca, 2007.

MOSAICOS MUSICAIS – A vida, contada e cantada, de várias gerações de artistas que fizeram e fazem a história da música popular brasileira. TV Cultura, domingo, às 20h30 (reprise aos sábados, 4h).

VIVER CASA & GOURMET – Um espaço que oferece workshops, treinamentos, consultorias, cursos gratuitos de gastronomia e palestras sobre comportamento, beleza e etiqueta. Para participar basta fazer o cadastro e se inscrever online http://www.vivercasaegourmet.com.br/. Rua Estela, 116, Vila Mariana, tel.: 5080-2766.




CONVIVAWARE

NTalvez vocês já tenham visto na TV um comercial da Natura sobre a história da água. Trata-se de um grupo de crianças brincando em volta de um lago, mostrando o processo de evaporação, a chuva, a chegada da água nas casas e crianças felizes tomando banho. O que provavelmente a maioria de vocês não atentou foi para o detalhe de uma indicação de audiodescrição, que aparece rapidamente junto à marca dessa indústria brasileira de cosméticos.

Como assim? O que é audiodescrição?

Quando as pessoas com deficiência visual assistem TV perdem muita informação. Muitas vezes, os diálogos não são suficientes para que as cenas sejam totalmente compreendidas. Se você enxerga, tente fechar os olhos e assistir TV por alguns minutos... Perceberá que, se determinadas cenas não forem explicadas, é impossível entender o que aconteceu. A narração dessas passagens é chamada de audiodescrição. Seu objetivo principal é, nos intervalos das falas, descrever os fatos relevantes do que está acontecendo, bem como o cenário, o figurino, etc.

Em junho de 2006, o Ministério das Comunicações (MC) publicou a Portaria nº 310, determinando que as redes de televisão, no prazo de dois anos, implantassem a audiodescrição. Em junho de 2008, exatamente no dia em que as emissoras deveriam iniciar as transmissões com esse recurso, atendendo a uma solicitação da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão - Abert, o MC publicou nova portaria suspendendo a obrigatoriedade.

Um grupo formado por pessoas com deficiência, acadêmicos e audiodescritores que, há muitos meses, vem lutando para que esse recurso seja incluído no cinema, na televisão e no teatro, iniciou uma campanha com o apoio do Ministério Público Federal e entidades de defesa de direitos das pessoas com deficiência. A mobilização resultou na Portaria nº 466, de 30 de julho de 2008, restabelecendo a obrigatoriedade e exigindo que, no prazo de três meses, as emissoras façam o que não fizeram em dois anos, ou seja, ofereçam pelo menos duas horas diárias de programas com audiodescrição.

Certamente nossos leitores devem estar se perguntando: o que audiodescrição tem a ver com informática?

Na verdade, nada, mas somente com o bom uso da tecnologia é possível usufruir de tão importante avanço na qualidade de comunicação para as pessoas com deficiência.

O filme Irmãos de Fé, do padre Marcelo, de 2004, foi o primeiro DVD que uma pessoa cega conseguiu operar com independência. Isso só foi possível porque seus menus são programados com uma locução para cada opção. À medida que se navega com o controle remoto do aparelho, os itens são falados, permitindo assim que se acesse não só o filme, mas também, de maneira direta, um capítulo, além dos extras.

A grande novidade, e que me inspirou a escrever sobre esse assunto neste Convivaware, é o comercial da Natura. A iniciativa partiu da agência de propaganda Peralta Strawberry Frog, em parceria com a Iguale Comunicação de Acessibilidade. Eles apresentaram a idéia para a empresa que, há muito tempo, preocupada com a responsabilidade social e comprometida com a causa das pessoas com deficiência visual, comprou a idéia – colocar na TV o primeiro comercial com audiodescrição do Brasil. Vale salientar que ele foi produzido antes da publicação da Portaria nº 466.

Alguns amigos certamente estão comentando que viram a propaganda, mas não perceberam nada de diferente. Como fazer, então, para ver o comercial com audiodescrição?

Nas capitais e grandes cidades, as redes de televisão disponibilizam sempre um sinal de vídeo e dois sinais de áudio. O segundo sinal de áudio é normalmente usado para a transmissão de filmes no idioma original. Muitas vezes, transmite exatamente o mesmo do primeiro sinal, ou seja, nem sempre sendo tão bem usado como poderia ser... Esse recurso se chama SAP - Second Audio Program (segundo programa de áudio). É justamente ele que é usado para a transmissão do comercial com audiodescrição. No canal principal de áudio a propaganda é transmitida normalmente, e, no segundo, é transmitida com audiodescrição.

Como fazer para ativá-lo? Existe uma função nos aparelhos de TV não muito antigos que alterna entre esses dois canais de áudio. Normalmente, encontra-se no controle remoto com o nome de SAP ou MTS (Multichannel Television Sound). Basta pressioná-la para mudar para o segundo canal. O vídeo continua exibindo normalmente, uma vez que essa função não tem qualquer influência sobre ele.

Caso se tenha TV a cabo ou se esteja vendo TV na placa de captura do computador e o controle remoto não possua uma dessas teclas, é interessante verificar no manual ou junto à operadora como habilitá-la.

Na Net TV digital, por exemplo, a função é obtida com o pressionamento da tecla “opção” e, em seguida, a tecla “verde”. Em alguns modelos, basta pressionar a “verde”, duas vezes rapidamente. Desse modo, quando ouvir som de crianças brincando, acione o SAP para perceber como a audiodescrição faz diferença na compreensão do comercial.

Contudo, se o leitor estiver em uma cidade onde o recurso de SAP ainda não é disponibilizado pelas retransmissoras, ou o tempo para ver TV seja pouco e a curiosidade esteja grande, pode visitar o site da Iguale e assistir o comercial pela Internet. Existem duas versões: uma de 30 segundos e outra com um minuto de duração. Ambas possuem audiodescrição.

Para os deficientes visuais informo que, embora seja uma janela com Flash, foram usados recursos de acessibilidade na sua construção, o que permite aos leitores de tela, que trabalham com essa tecnologia, o acionamento do vídeo sem problema.

O comercial pode ser visto no endereço:

http://www.iguale.com.br/trabalhos_detalhes.php?ID_Trabalho=2#midiaTrabalho

Agora, cabe a todos nós, pessoas com deficiência visual, a cobrança por cada vez mais programas com audiodescrição. Só assim ela se tornará uma realidade em nosso país.

Laercio Sant’Anna


A CONSTRUÇÃO DO SUCESSO


O pensamento do sucesso começa com idéias, sonhos, atitudes, educação e planejamento.

Tem muita gente que defende a idéia de que para alcançar o sucesso profissional basta querer e querer intensamente.

É isso, provavelmente, a primeira atitude de um vencedor.

Mas de nada vai adiantar desejar, se os planos não saírem do papel. Grandes idéias nascem e morrem todos os dias por falta de um plano de ação que dê sustentação à idéia. São as atitudes que escrevem a nossa história e não nossas expectativas.

Muitos dos que fazem sucesso afirmam todos os dias que não ficam esperando o sucesso bater às suas portas. Gosto sempre da afirmação do Abílio Diniz: “enquanto alguns sonham com o sucesso, nós acordamos cedo para fazê-lo”. Ninguém chega onde quer chegar profissionalmente por um golpe de sorte.

Foi-se o tempo que um currículo recheado de excelentes universidades e MBAs eram certeza de boa colocação profissional.

Não faltam exemplos hoje de pessoas com cursos, digamos aqui, apenas razoáveis, que conseguiram encontrar o caminho do sucesso até com mais solidez do que outros que vieram de grandes escolas.

Não há crítica aqui ao conhecimento ou a qualidade real das grandes escolas, mas, sim, à atitude do ser humano ou à falta dela; a diferença está nas decisões e na postura que a pessoa toma em sua vida.

A maior carência no mundo profissional não é de conhecimento e, sim, de atitude. As pessoas sabem o que têm que fazer, mas não fazem.

Também existem outros ingredientes para se atingir o topo. Segundo Eugênio Mussak, especialista em educação corporativa, as pessoas costumam encarar a vida profissional separada da vida pessoal, como se isso fosse possível! Essa é uma visão de curto alcance, porque não se pode desenvolver alguém pela metade. Ele ainda fecha essa posição com três pontos estratégicos: 1. onde se está;
2. onde se quer chegar; e 3. o que se está fazendo para chegar lá.

O ser humano é o animal mais frágil do planeta. Ele só consegue ter força quando se une aos seus pares. Essa é uma visão filosófica, mas também muito utilitária. Mas é preciso sair do discurso para a ação. Não basta apenas trocar cartões. É necessário cultivar amizades e estabelecer vínculos. Não basta rezar... É preciso ir ao encontro de Deus!

E quando você estiver no topo, lembre-se das palavras do dramaturgo americano Wilson Mizner: “seja simpático com as pessoas à medida que você for subindo, porque você encontrará com elas à medida que descer”. Ou seja, humildade não faz mal a ninguém!

Angélica Nogueira (CPM Braxis, RH)


ESTIVE LÁ E GOSTEI!

Guararema

Há um rio que corta a minha cidade. E na sua, há um rio?
Que bom seria se todas as cidades tivessem um rio onde pudéssemos, com os pés imersos, contemplar em águas claras os peixes que nele vivem. E foi com essa saudade que viajei a Guararema, uma cidadezinha a 75 km de São Paulo.

Afinal, as águas não poluídas do rio Paraíba do Sul são um dos atrativos turísticos de Guararema, onde se pode pescar peixes como: piaba, piabanha, piau, curimbatá e outros, passear de barco e jet sky. A preservação não se encontra apenas nas águas, mas ao seu redor, com a presença da mata ciliar, de animais silvestres e muitas aves.

Com a nascente na serra da Bocaina, na junção do rio Paraitinga e Paraibuna, em São Paulo, o rio Paraíba do Sul, de cor verde escuro, com 1.058 km de extensão, deságua na cidade de São João da Barra no estado do Rio de Janeiro. E não é que lá em Guararema tem até ilha! Duas delas receberam infra-estrutura, incluindo pontes que as ligam, tornando possível uma total integração entre o homem e o meio ambiente. Fui visitá-las, é claro!

Começando pela Ilha Grande. Lá na ilha, fiz uma caminhada por uma pista de 400 metros, às margens do rio Paraíba, sentindo o cheirinho de mato e ouvindo o som típico de água quando encontra uma pedra no caminho. Dei uma paradinha para ouvir um músico com sua gaita, interpretando alguns clássicos da música sertaneja. Quem desejar pode aproveitar também a orientação de um professor de educação física do projeto "Bom Dia Saúde" para fazer alongamento.

Deixando a ilha, me dirigi ao Recanto do Américo. Esse verdadeiro cartão-postal, além das pontes que interligam a praça às ilhas, conta com ampla e variada concentração de espécies de mata nativa, remanescentes da Mata Atlântica, e uma bicentenária árvore pau d'alho, com aproximadamente 30 m de altura e 12 m de diâmetro. Aliás, o nome da cidade é inspirado nessa árvore que, em tupi, se chama guararema. Fiquei um pouquinho ali, curtindo toda aquela tranqüilidade, sentado em um banquinho de praça. Próximo da Ilha Grande há uma feirinha de artesanato, onde se encontram bijuterias, chapéus, sabonetes de diversas frutas e peças decorativas.

Seguindo o rio, cheguei até o Pontilhão ou Ponte de Ferro Central do Brasil, próxima à estação de trem, de origem inglesa, cuja arquitetura chama a atenção de todos.

Depois fui conhecer o Parque Municipal da Pedra Montada, localizado na estrada da Petrobras. Ali, após subir uma longa escadaria, encontrei uma verdadeira escultura da natureza. Trata-se de uma belíssima sobreposição de pedras, cada uma medindo cerca de 9m de comprimento por 2,5m de altura. É possível também chegar às pedras por meio de uma rampa, que permite o acesso de cadeirantes.

Quando bate a fome, há boas opções gastronômicas em Guararema, desde ranchos à margem do rio, que servem a famosa traíra sem espinhos, até sítios que, além de restaurantes, têm arborismo com tirolesa, treking, rapel e escalada. Em um desses, provei e aprovei um delicioso pintado com molho de camarão, palmito e alcaparra. Se você aprecia o belo, não deixe de ir à Orquidácea. Considerado um dos melhores orquidários do Brasil, em termos de organização, limpeza e qualidade de cultivo, lá se produz, em média, 150.000 mudas/ano, atendendo sempre as últimas tendências do mercado, com as melhores matrizes nacionais e internacionais.

A 8 km do centro da cidade, na fazenda da Cia. Suzano de Papel e Celulose, se encontra a Cachoeira do Putim, de 15 metros. Suas pedras formam escorregadores naturais. Para quem curte visão panorâmica, a dica é o morro do Gerbásio, com 80 metros de altura, que proporciona boas fotos do vale que abriga a cidade.

Então, é ou não um bom lugar para passar o próximo domingo?

Acessibilidade:

o site da cidade <www.guararema.sp.gov.br> é acessível, porém pobre de informações. Os demais itens deixam a desejar. Não há folhetos de informações turísticas em Braille, nem intérprete de Libras.

Como chegar:

rodovia Presidente Dutra ou rodovia Ayrton Senna, ambas pedagiadas.

Sidney Tobias de Souza


SOBRE RIOS

“Em um domingo chuvoso, na casa em que foram criados meu pai e seus irmãos, encontrei uma folha amarelada pelo tempo, que trazia uma bela poesia – ou parte dela –, que falava sobre os rios, suas belezas e um forte sentimento. No mesmo dia, cheio de lembranças daqueles típicos almoços italianos, daquelas tardes embaixo das nogueiras, olhando para a estrada empoeirada, me deparei sobre a ponte que corta o rio Taquari, olhando a beleza de sua cheia, a imensidão de suas águas, sua calma de velho habitante e a saudade de um tempo que ele jamais esquecerá. Parecia sorrir por ser lembrado e chorar de saudade da época em que podia receber em seu leito a alegria das crianças. Hoje é calmo e parece dormir tranqüilamente à espera daquele menino que lhe dedicou belas palavras e o deixou com tanta saudade.”

(Bruno Bazanella, admirador do velho Taquari e do tio e padrinho, do qual tem o maior orgulho, 18 de setembro de 2005)

“A par da importância na história da maioria das cidades, os rios exercem um estranho fascínio sobre o homem ribeirinho. Para constatar isso, basta que se atente às inúmeras canções que têm o rio como tema. Quem de nós, rocassalenses, não tem um laço com o Taquari, em cujas águas me banhava (no meu tempo se podia), depois das peladas de domingo à tarde, pelos potreiros, com bolas de meia ou laranjas à guisa de bola? Pois foi esse rio, ou melhor, aquele rio que me inspirou a escrever.”

(texto escrito por Lothar Bazanella*, à coluna Um Fora do Ninho, do jornal O Expresso, de Roca Sales-RS)


MEU RIO

Lothar Bazanella


Meu rio, andei sozinho vida fora
e volto tão saudoso quão descrente,
rever onde brinquei antigamente,
até que um sonho meu levou-me embora...

Eu, como tu, tive mil afluentes,
mas, um a um, se foram... E eis-me agora
a recordar contigo as belas horas
da infância que não mais se faz presente...

Meu rio... Corremos juntos tantos anos...
Eu te imitava ao transbordar de planos,
porém, por ironia do destino,

hoje, do fundo deste mar de enganos,
inda te posso ver, contra oceanos,
correndo como eu, quando menino!...

*Lothar A. Bazanella é natural de Roca Sales (RS). Transferiu-se para Porto Alegre (RS) para estudar no Instituto Santa Luzia, escola especial para cegos, pois perdeu a visão em um acidente aos cinco anos de idade. Cursou até o segundo ano de Direito, quando interrompeu, em 1973, para fazer um curso de programação de computadores em São Paulo, onde reside e ocupa o cargo de analista na Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam-SP). Colorado até os dentes e rocassalense em qualquer parte do mundo.

 


NOSSOS TALENTOS


Em entrevista ao Conviva, Júlio Brito, responsável pelo coral da ADEVA, fala da família, da sua paixão, a música, de como conheceu a entidade e se tornou seu maestro

Nascido em Salvador (BA), no dia 19 de abril de 1977, Júlio (31) é formado no curso de composição da faculdade Santa Marcelina. Atualmente, está no segundo ano de regência na faculdade Cantareira, pois “na música é importante que o profissional esteja sempre se aprimorando”, comenta.

Apesar de seus pais não serem do ramo, Júlio conta que eles sempre gostaram muito de música: “ouviam MPB, jazz e clássicos”. E foi nesse ambiente que ele começou a se interessar em aprender a tocar um instrumento. Primeiro o violão, aos sete anos. Desistiu porque “entre jogar bola e estudar música, optei, na época, pela bola”. Mais tarde, já na adolescência, voltou a pensar no assunto e recomeçou a tocar o instrumento. No colegial, conheceu amigos que também gostavam de música; formou grupos que compunham, mas, até então, era apenas um hobby.

Na época do vestibular, quando teve que escolher uma profissão, ficou dividido entre suas duas paixões: a música e o esporte. Então, prestou vestibular para educação física e música e passou nos dois.

Trabalha com coral há nove anos. A princípio, era apenas um dos integrantes do coral da faculdade. “Lembro até hoje o primeiro dia – quando comecei a cantar e ouvir as outras vozes, me arrepiei dos pés a cabeça e, ali, tive a certeza que trabalharia com isso.” Posteriormente, surgiu a oportunidade de reger, primeiro, na escola, um grupo da comunidade local e, depois, em diversos outros espaços. Hoje ele é o maestro de seis corais, incluindo o da ADEVA, que, em abril de 2008, completou cinco anos.

“Sou muito feliz fazendo o que faço, por ter a oportunidade de trabalhar com um tipo de arte que atinge diretamente a alma das pessoas. Para mim, a música é isso, uma linguagem acessível a todos e que fala à alma de cada um, do sertanejo ao empresário. E a voz é a mais pura expressão dessa arte, pois é um instrumento que já vem de fábrica”, afirma.

Como toda criança saudável e feliz, Júlio sempre teve bons amigos, jogou muita bola e “fez arte” no prédio onde mora até hoje. Na adolescência – período de tentar entender o mundo, as pessoas – “a música ganhou força em minha vida, pois, por meio dela, consegui dar vazão a todas as idéias e sentimentos que fervilhavam em minha mente”, conta.

Júlio tem três irmãos, dois mais velhos que ele, o Pedro e o Paulo, e um mais novo, o André. “Nos vemos pouco, pois a correria do dia-a-dia não deixa tempo para muitos encontros; mas quando nos encontramos é sempre bom. O problema é quando assistimos jogo de futebol juntos – cada um torce para um time. Do meu pai (Carlos) e da minha mãe (Marisa) sou suspeito pra falar, não é? Me deram apoio sempre que precisei, por isso sou muito grato aos dois”, acrescenta.

A ADEVA

Júlio chegou na ADEVA há cinco anos, a convite de uma ex-integrante do coral, a Ângela Ribeiro. Um grupo de alunos estava interessado em cantar e ensaiar uma ou duas músicas para apresentar na cerimônia de entrega de diplomas do curso que iriam completar naquele ano (2003). “Ela me consultou sobre minha disponibilidade em organizar a cantoria.” Ele aceitou. No primeiro encontro, uma outra maestrina estava lá, para ajudar. Cada um fez um arranjo e, juntos, ensaiaram o pessoal. Depois da festa, todos quiseram continuar com a atividade e, como a maestrina tinha outros compromissos, o Júlio assumiu a tarefa. O coral da ADEVA canta MPB, música sacra e também spirituals. Atualmente, conta com 17 participantes (cinco sopranos, seis contraltos, quatro tenores e dois baixos).

Reger um coral quase todo formado por deficientes visuais, segundo Júlio, do ponto de vista técnico, é diferente, pois ele não tem o recurso da regência para “extrair” a sonoridade dos coralistas. O maestro lembra, contudo, que isso é compensado, de certa forma, pela sensibilidade auditiva que a maioria dos integrantes possui.

Para Júlio participar do trabalho de inclusão que a ADEVA realiza há 30 anos é gratificante porque “o conhecimento é, na minha opinião, o melhor patrimônio que podemos adquirir. É imperecível e, uma vez conquistado, será seu para sempre. Quando conseguimos agregar valor humano a esse conhecimento, ele passa a ser uma potente arma de transformação positiva da realidade. É isso que eu sinto na ADEVA. Transforma e muito até nós, professores e colaboradores", conclui.

Jogo rápido

Signo: Áries
Cor: Azul e branco.
Hobby: Música, arte em geral e futebol.
Mania ou marca registrada: meus óculos.
O que mais gosta de fazer nas horas vagas: Estar com os amigos e a família.
Um filme: De porta em porta (EUA, 2002), com William H. Macy, Kyra Sedgwick (ver recomendados)
Um livro: Mereça ser feliz: superando as ilusões do orgulho, Wanderley S. de Oliveira (pelo espírito Ermance Dufaux), Belo Horizonte: Dufaux, 2004.
Esporte preferido: Futebol.
Time de futebol: Coringão.
Estilo de música: Música boa.
Uma música: Impossível apenas uma.
Cantora preferida: Bethânia, Elis, Joyce (são tantas...).
Cantor: Milton Nascimento.
Religião: Humanista.
Deus: Amor.
Família: Tudo.
Amigos: Alegria.
Amor: Deus, amigos, família.
O que fazer para viver melhor: Conhecer a si mesmo e ouvir a alma.
Seu sonho: Não tenho um grande sonho, tenho aprendido a viver um dia de cada vez.
Uma frase: “Caminheiros, não há caminho, o caminho se faz caminhando.” Lúcia Nascimento


O QUE VOU SER QUANDO CRESCER

Herb Greenberg, um “jovem” de 78 anos, que tem quatro filhos (um do primeiro casamento, um do segundo e dois da atual esposa) e uma netinha, é o presidente fundador da Caliper, consultoria norte-americana, com sede em Princeton, New Jersey, há 47 anos no mercado, especializada em gestão estratégica de talentos.

Ele auxilia a contratar e desenvolver funcionários, formar equipes, orientar executivos, gerenciar o desempenho e quase todos os aspectos que visam garantir que as organizações contem com as melhores pessoas e os melhores sistemas.

Desenvolveu (em agosto de 1961) um instrumento de avaliação, o Perfil Caliper, e o aprimorou ao longo de quatro décadas (já foi revisado 21 vezes e aprimorado nos escritórios do Brasil e em outros 11 países), tornando-o uma das mais precisas ferramentas disponíveis atualmente para identificar os motivadores, os pontos fortes e o potencial de uma pessoa. Essa avaliação é a base do seu método de consultoria e já ajudou mais de 25 mil empresas no mundo todo, entre as quais FedEx, Caterpillar, Johnson & Johnson, e algumas empresas de porte menor, a avaliar e desenvolver o talento de mais de dois milhões de candidatos e funcionários, de trainees a presidentes de empresas.

Herb nasceu em Detroit, Michigan. Hoje, mora em New Jersey (EUA).

Ficou cego quando tinha dez anos, depois de uma seqüela gerada por uma infecção da mastóide. A penicilina seria inventada apenas um ano depois. Foi um processo lento, gradual. “Não houve nenhum momento de choque quando pensei – meu Deus, estou cego –, e não me lembro de ter chorado ou perguntado ‘porquê?’ ou ‘o que vou fazer agora?’. Simplesmente, fui me adaptando. Eu tentava olhar as coisas cada vez mais de perto. E, juro por Deus, não percebi, a não ser pelos pontos pretos que via, que tinha alguma coisa errada comigo. Só fui me dar conta do problema em uma das visitas ao médico, quando eu o ouvi dizer aos meus pais: ‘seu filho já está cego’”.

No ano seguinte, a família alternou estados de rejeição e aceitação sobre o fato, mas contratou aulas de Braille imediatamente. “Havia três escolas que eu podia freqüentar, mas eram todas distantes; então, comecei a ter aulas em casa. Eu não queria freqüentar uma que fosse só para cegos, mas, sim, uma pública, normal. Se tivessem me enviado a uma escola de cegos, não tenho dúvidas, especialmente na época, de que minhas opções teriam sido muito limitadas e minha vida, completamente diferente.”

Sua capacidade de rápida memorização, segundo conta, foi o que o ajudou desde os primeiros anos da escola até o doutorado. “Não sou rápido o suficiente para ler um livro em Braille. Normalmente, confio na minha memória; uso o Braille também, mas só para tomar nota de alguma coisa, como números de telefone (isso, principalmente, quando eu conhecia uma garota), para jogar cartas, bridge.”

E, para exercer sua profissão, ele não se vale muito da tecnologia disponível para deficientes visuais. “Uso mais para gravar e ouvir livros digitalizados, CDs, pois há muito material hoje disponível. Gosto muito de gravar músicas também.

O começo

Mestre em psicologia pelo City College de Nova Iorque, e Ph.D em relações humanas e psicologia, pela Universidade de Nova Iorque, Herb é considerado um dos maiores especialistas mundiais em análise de relações entre personalidade e desempenho profissional.

Além da criação do Perfil Caliper, uma avaliação de personalidade patenteada, que identifica o potencial, os motivadores e os pontos fortes de candidatos a emprego e colaboradores em geral, escreveu os best-sellers How to hire and develop your next top performer (As cinco qualidades do supervendedor) e Succeed on your own terms (O sucesso tem fórmula?), juntamente com Patrick Sweeney, vice-presidente executivo da Caliper, ambos publicados pela editora Campus/Elsevier, no Brasil.

O início da sua vida profissional não foi fácil. “Enfrentei barreiras; o maior medo que precisei superar quando adulto foi o de ser rejeitado em uma entrevista de trabalho. Eu tinha acabado o doutorado e havia prestado assessoria por mais de três anos para o Departamento de Bem-Estar Social da cidade de Nova York. Preenchi mais de 600 solicitações de emprego para vagas em todo o país, desde magistério e serviço social até consultoria. Recebi alguns pedidos de entrevista, mas quando eu informava que era cego, desistiam de me contratar. Por fim, me ofereceram o cargo de professor assistente na Texas Tech University.”

Depois, lecionou na Rutger University. Foi quando uma empresa de seguros o contratou para um projeto de consultoria. “Eles desejavam uma análise de todos os testes psicológicos disponíveis na época para determinar qual deles poderia prever se uma pessoa daria um bom vendedor. Um amigo e eu gastamos cerca de três meses observando as avaliações existentes e não havia nada ainda que pudesse prever o sucesso de vendas. Então, nos pusemos a trabalhar e levamos quatro anos para desenvolver um teste capaz disso.”

“Na época, eu vivia apenas o mundo acadêmico e nós dois tínhamos apenas 15 mil dólares para iniciar o negócio (o que é pouco nos Estados Unidos, levando em conta que já tínhamos família para sustentar). Esse foi o início da Caliper e a idéia geral da empresa.”

Hoje, como presidente e CEO (chief executive officer) da Caliper Estratégias Humanas, ele contabiliza a aplicação de mais de 2,5 milhões de testes, em mais de 20 mil empresas ao redor do mundo, em 18 idiomas.

Seu recado

“Todos nós temos uma deficiência física ou psicológica; então, apenas vá em frente e faça o que precisa fazer sem se incomodar com o que os outros vão pensar sobre você. Não se preocupe com a rejeição, simplesmente faça. Foi o que aconteceu na minha vida, eu segui em frente. Você tem que focar a sua vida. Procure descobrir no que você é bom... Quando Steve Wonder ou Ray Charles cantam ou tocam piano, ninguém se importa com a cegueira deles, da mesma forma como ninguém vai se importar com sua altura, ou se você é alto ou baixo, negro ou branco, se você der o melhor de si no que faz. Seja lá o que você for, se preocupe apenas com o que você é. E faça. O que importa é seguir o seu caminho. Vá em frente... dê o melhor de si, desenvolvendo seus pontos fortes.

BOX

O livro Succeed on your own terms fala do sucesso por meio da superação. Foram dois anos de pesquisas e entrevistas com pessoas bem-sucedidas ao redor do mundo para descobrir as qualidades essenciais que tornam cada uma delas extraordinária. Entre os entrevistados, que passaram inclusive por avaliação de personalidade, estão os brasileiros João Carlos Martins, considerado um dos melhores intérpretes de Bach ao piano, e o conceituado palestrante e escritor José Luiz Tejon.

Cristiana Felippe


ADEVA EM FOCO

TRINTA ANOS

No próximo dia 29 de outubro, as 20h, acontece o já tradicional jantar de aniversário da ADEVA no não menos tradicional Bar Brahma (fundado em 1948), na av. São João 677, esquina com a Ipiranga. Este ano, a entidade comemora trinta anos de trabalho em favor da profissionalização e da inserção do deficiente visual no mercado de trabalho. Os convites estão à venda (3824-0560 ou 3667-5210, com a Sandra Maciel). Dão direito ao jantar entre amigos e show com Jair Rodrigues.


GRÁFICA BRAILLE

A ADEVA conta com uma gráfica e oferece a impressão de textos em Braille e em caracteres ampliados. Todos os recursos obtidos com a produção desse serviço são revertidos para a manutenção da entidade. Os valores pagos podem ser deduzidos do imposto de renda de pessoas jurídicas.

Mais informações pelos telefones: (11) 3824-0560 ou 3667-5210, com Márcio ou Sandra.


PALESTRAS

Com o objetivo de promover o desenvolvimento pessoal e profissional de empregados e empregadores, e conscientizar a sociedade sobre o potencial da pessoa com deficiência, a ADEVA oferece palestras sobre temas como Estresse, Etiqueta empresarial, O trabalho e o valor do trabalhador, Mitos e realidades sobre o deficiente.

Para agendar dia e horário, entre em contato com Sandra Maciel ou Márcio Spoladore, pelo telefone (11) 3824-0560 ou pelo e-mail: marcio@adeva.org.br.

As palestras podem ser ministradas in company e seu valor abatido do imposto de renda de pessoas jurídicas.


ANÚNCIOS

©PRONTO-SOCORRO DO TEXTO
Elaboração e revisão de textos em língua portuguesa. Informações com Egle, pelos telefones: 11 8160-1830 / 5572-5933.

MANUEL TAXISTA
Para quem quer ser atendido com cortesia e hora marcada, fazer o melhor trajeto, viagens, levar o filho à escola ou ir às compras, ligue: 11 9683-9040 e fale com o Manuel. Desconto especial para os associados da ADEVA em dia com o pagamento da anuidade.

CURSOS DE CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL NA ADEVA
As inscrições podem ser feitas pelos telefones: (11) 3667-5210, (11) 3824-0560, com Sandra Maciel, e (11) 5084-6693 / 6695, com Edvando.

GARILLI
Pré-impressão e Impressão – Garilli.
http://www.garilli.com.br
tel.: 11 6694-3288


Expediente

Conviva - Associação de Deficientes Visuais e Amigos - Adeva - Ano IX – nº 42 – julho/agosto de 2008

Jornalista responsável: Liane Constantino (MTb 15.185)


Colaboradores: Liane Constantino (MTb 15.185). Colaboradores: Celso de Oliveira, Cezar Yamanaka (MTb 16.969), Laercio Sant’Anna, Lúcia Nascimento (MTb 29.273), Mara Alves, Márcio Spoladore, Markiano Charan Filho, Sandra Maciel, Sidney Tobias de Souza.


Correspondência:
Praça da Bandeira, 61, cj. 61- CEP 01007-020 - São Paulo (SP)

Telefones: 11 5084-6693, 5084-6695
Fax: 11 5084-6298

E-mail: adeva@adeva.org.br

Site: http://www.adeva.org.br

Editoração: Fernanda Lorenzo.

Revisão: Célia Aparecida Ferreira.

Fotolitos e Impressão: cortesia Garilli Artes Gráficas Ltda. - Tel.: 11 6694-3288
E-mail: garilli@garilli.com.br
Tiragem: 1.000 exemplares
Distribuição gratuita.

Veja o Conviva nº 40